O mural de Di Cavalcanti
O novo Cabaret da Cecília tem o grande prazer de ser vizinho de uma obra de arte de proporções gigantescas: o mural feito na técnica de mosaico em pastilhas de vidro por ninguém menos que Emiliano Di Cavalcanti, um dos maiores expoentes da Arte Moderna brasileira.

foto: Nelson Kon
O mural, intitulado Alegoria das Artes, é a maior obra do artista e ilustra dez musas inspiradoras das artes e das ciências. Com 48 metros de comprimento por 8 metros de altura, foi criado em 1950 para adornar a fachada do Teatro Cultura Artística, em um projeto assinado pelo renomado arquiteto Rino Levi.
O edifício foi uma das maiores realizações da Sociedade Cultura Artística, entidade fundada em 1912 por artistas, intelectuais, jornalistas e empresários paulistanos para estimular a vida cultural da cidade. A inauguração, realizada em duas noites — 8 e 9 de março de 1950 —, ficou a cargo dos dois maiores maestros e compositores brasileiros: Heitor Villa-Lobos e Camargo Guarnieri.

As musas mitológicas ali representadas fazem referência às filhas de Zeus e Mnemósine: Calíope, Clio, Érato, Euterpe, Melpômene, Polímnia, Tália, Terpsícore e Urânia. Cada uma traz elementos pictóricos que a identificam:
Euterpe, a musa da poesia lírica e da música, é retratada como uma graciosa jovem segurando uma flauta e, por vezes, um caderno de música;
Terpsícore personifica a dança e o canto, representada por uma jovem sorridente coroada com um diadema, tendo nas mãos uma harpa ou uma lira de escamas de tartaruga com dois chifres de cabra;
Calíope representa a poesia épica e a eloquência, usando uma coroa de louros e segurando um estilete, um rolo de papel, uma trombeta ou tábuas de escrita;
Clio, a primeira das nove musas, presidia a história e a epopeia, sendo representada com coroa de louros, um papiro em uma das mãos e uma trombeta (ou cítara) na outra;
Érato presidia a poesia erótica e lírica, retratada coroada de mirto e rosas, com uma lira na mão esquerda e uma cítara ou arco na mão direita;
Polímnia presidia os cantos e hinos em honra aos deuses, favorecendo a memória e a assimilação dos conhecimentos (durante o Império Romano, também lhe foi atribuída a arte da mímica), representada em atitude de meditação;
Melpômene, a musa da harmonia musical e do canto que mais tarde se tornou a musa da tragédia, é representada coroada de parreira e segurando uma máscara trágica;
Tália, divindade campestre e pastoril que ensinou os homens a cultivar a terra, era protetora das plantas, sementes e rebanhos, sendo-lhe atribuídas posteriormente a comédia e a poesia cômica;
Urânia, "aquela que vem do céu", presidia a astronomia e a geometria, sendo representada coroada de estrelas e segurando um compasso.

Essas são as características clássicas de cada uma das nove musas mitológicas, mas o pintor carioca acrescentou uma décima musa de sua própria autoria, além de elementos com forte identificação com o povo brasileiro, como o violão, o tambor e o vaso de barro. Outro ponto relevante é a representação mascarada, que faz alusão ao disfarce e ao próprio Teatro — motivo central do edifício. Pode-se dizer que não apenas uma musa é de sua invenção, mas todas as dez musas femininas estampadas no painel ganham uma leitura profundamente brasileira, característica do artista moderno.
Em 2008, o teatro sofreu um grave incêndio que destruiu completamente o interior do edifício. Quase por um milagre, o painel externo foi poupado. A obra passou por um minucioso processo de restauro entre 2010 e 2011, realizado pela Oficina dos Mosaicos (Isabel Coelho e Gonçalo Ruas),
trabalho reconhecido com o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, concedido pelo IPHAN.

A mensagem que a Arte (com A maiúsculo) nos deixa é a de que ela é atemporal e perene. Mesmo diante de todas as adversidades, as musas seguem ali: sempre vigilantes e protetoras.



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